Mais do que celebrar, o é de relembrar e reforçar lutas históricas das mulheres por mais direitos, espaço e conquistas na sociedade. Os anos de reivindicação, que seguem até os dias de hoje, permitiram que mulheres inspiradoras se consolidem em cargos de destaque no Espírito Santo.
No Espírito Santo, instituições historicamente comandadas por homens hoje têm mulheres no topo. Tribunal de Justiça, Ministério Público do Trabalho, Polícia Militar e OAB-ES estão sob liderança feminina: um cenário que simboliza avanços na ocupação de espaços de poder e marca as reflexões do Dia Internacional da Mulher.
Elas estudaram, enfrentaram desafios, construíram uma trajetória profissional e, hoje, são referência na carreira que escolheram, ocupando o mais alto cargo de liderança.
Coronel Emília Alves, comandante de Policiamento Ostensivo Regional (3º CPOR) da Polícia Militar;
Desembargadora Janete Vargas Simões, presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES);
Procuradora Janine Milbratz Fiorot, procuradora-chefe do Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES);
Desembargadora Alzenir Bollesi de Plá Loeffler, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região (TRT-ES);
Advogada Erica Ferreira Neves, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Espírito Santo (OAB-ES).
Entrevistamos as seis mulheres para conhecer suas vivências no trabalho e o que o Dia da Mulher representa para elas.
Coronel Emília: pioneira na Polícia Militar inspira mulheres e meninas
A coronel Emília Alves está na Polícia Militar desde 1995. Ao longo dos 31 anos de carreira na corporação, passou por todos os postos do Quadro de Oficiais Combatentes: 2° Tenente, 1° Tenente, Capitão, Major, Tenente-Coronel e, por último, o mais alto que é de Coronel.
Atualmente, é a primeira mulher a exercer o posto de Comandante de Polícia Ostensiva Regional no Sul do Estado, que compreende cinco unidades operacionais da PM, 22 municípios e cerca de mil policiais.
Pioneira, Emília ressalta que a conquista de espaço pelas mulheres empodera e inspira outras mulheres e meninas a fazerem o mesmo, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade social.
É uma importância histórica e transformadora ímpar. Sedimenta a posição da mulher na sociedade, transforma as instituições na medida em que precisam se adaptar e se modernizar e contribuem para a diminuição da invisibilidade da mulher na sociedade.”
Coronel conviveu com machismo na família e na polícia: cabo já se recusou a chamá-la de “senhora”
A policial revela que cresceu em meio ao preconceito, que começou dentro de casa. Segundo ela, seu pai defendia que mulheres não precisavam estudar e apenas se preparar para o casamento. Desde cedo, ela teve que aprender a lidar com o machismo e enfrentá-lo.
Não guardo mágoa, pois sei que ele reproduzia comportamentos arraigados na sociedade. Tive que quebrar barreiras, já com pouquíssima idade.”
Já na polícia, ambiente predominantemente masculino, Emília confrontou um colega que se recusava a chamá-la de “senhora”. “Eu percebia que havia um desconforto, o que não acontecia quando ele se referia aos homens mais antigos do que ele. Chegou ao ponto de eu ter que adverti-lo para que ele se dirigisse a mim, conforme o regulamento disciplinar
exigia. Só então, ele passou a me chamar de ‘senhora’.”
Até hoje, a policial ainda convive com comentários machistas no trabalho, como “Nossa, Coronel, a senhora é mulher e está indo tão bem no Comando do 3° CPOR!”. Para ela, os relatos demonstram que o preconceito ainda é muito presente na sociedade e acontece de forma explícita e, por vezes, velada.
Dia da Mulher é um “momento crucial para o debate”
Nesse cenário, Emília conta que entendeu a importância de datas como o Dia da Mulher para fomentar o debate sobre as minorias. Segundo ela, as mulheres estão gritando por respeito às suas vidas, com os índices alarmantes de feminicídio, e esses eventos forçam à reflexão e ação.
Eu já tive a concepção de que, ter um dia dedicado à comemoração das “minorias” (mulher, índio, negro) contribuía para agravar o preconceito. Hoje eu já revi este posicionamento e defendo que é um momento crucial para o debate sobre a situação das mulheres na sociedade”
A coronel ainda reforçou a importância de denunciar a violência contra as mulheres e repensar o papel na construção de uma sociedade mais democrática e digna. Ela também lembra aos homens que as mulheres não são adversárias e sim parceiras no convívio social.
Janete: pioneirismo no TJES é um “marco histórico”
A desembargadora Janete Vargas Simões é a primeira mulher presidente nos mais de 130 anos de história do TJES. Em sua posse, em dezembro de 2025, ela destacou que assumir o cargo é um marco histórico que mostra o amadurecimento da instituição.
Segundo Janete, ocupar um lugar de poder não pode ser confundido com imposição. Significa construção coletiva, escuta ativa e decisão responsável. Para ela, a posição traz a obrigatoriedade de agir com responsabilidade, sensibilidade, firmeza e compromisso ético.
A desembargadora ainda ressalta que nunca passou por situações de preconceito em sua carreira, mas que a magistratura traz desafios, os quais sempre enfrentou.
Sempre procurei enfrentar qualquer resistência com trabalho, preparo técnico e postura ética. A melhor resposta aos obstáculos é a competência aliada ao equilíbrio.”
“Não permitam que limites externos definam seus sonhos”, diz Janete
A presidente do TJES ressaltou a importância do Dia da Mulher para celebrar a força, a coragem e a diversidade da mulher. De acordo com ela, a data representa uma luta e conquista, que merece respeito e reconhecimento.
Janete também deixou um recado para as mulheres nesta data, dizendo para buscarem conhecimento, redes de apoio e manterem a integridade em cada passo da jornada.
Invistam na formação, acreditem na própria capacidade e não permitam que limites externos definam seus sonhos. O caminho pode apresentar grandes desafios, mas é plenamente possível. Ocupar espaços é também abrir portas para outras gerações que virão depois.”
Janine (MPT-ES): ter mulheres em cargos de liderança é uma “medida urgente”
Janine Milbratz Fiorot atualmente é procuradora-chefe do Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES). Com 24 anos de carreira, a procuradora atua no MPT desde 2005, tendo passado pelas regionais do Paraná, da Bahia e do Rio de Janeiro, antes de chegar ao Espírito Santo há sete anos.
Ela foi eleita para o cargo no ano passado para dirigir o órgão no biênio de 2025-2027. Antes, já era procuradora-chefe substituta desde 2021. Janine destaca que tem a responsabilidade de comandar um órgão focado na defesa da ordem jurídica trabalhista e da dignidade do trabalho.
Uma mulher à frente dessa instituição simboliza a concretização de um dos princípios mais caros defendidos pelo MPT: a igualdade nas relações de trabalho e no acesso aos cargos de liderança.
Para ela, ocupar o cargo é demonstrar que é possível e necessário que mulheres ocupem posições de comando em instituições públicas e privadas. “É uma medida urgente em uma sociedade ainda marcada por profundas desigualdades, pela violência de gênero e por manifestações de misoginia.”
Procuradora revela que já duvidaram de seu trabalho por ser mulher
Janine conta que, logo quando chegou ao MPT, aos 26 anos, percebeu certo grau de preconceito contra ela. Segundo ela, havia dúvida acerca de sua capacidade de lidar com questões complexas. Mas seguiu trabalhando, defendendo as normas trabalhistas, demonstrando e exigindo respeito com sua atuação.
Na sociedade em geral, infelizmente, as mulheres ainda enfrentam níveis mais elevados de preconceito e discriminação. Não é incomum vivenciar ou perceber tentativas de subjugar o sexo feminino, o que reforça a necessidade permanente de afirmação e de defesa da igualdade.
De acordo com ela, o Dia da Mulher é um momento de reflexão sobre a trajetória percorrida na sociedade em busca da igualdade de direitos entre homens e mulheres. A data serve para reforçar o compromisso de construir uma sociedade mais livre, justa e igualitária.
Gostaria de parabenizar todas as mulheres por sua força, coragem e contribuição diária para a sociedade. Reafirmo que o Ministério Público do Trabalho está de portas abertas para defender os direitos trabalhistas das mulheres, especialmente no combate a toda forma de assédio e discriminação praticadas no mundo do trabalho.”
Alzenir (TRT-17): mulheres na liderança “olham com atenção para grupos invisíveis”
Alzenir Bollesi de Plá Loeffler, presidente do TRT da 17ª Região do Espírito Santo, ocupa o cargo no biênio 2025-2027. Ela é desembargadora desde 2021 e, neste ano, completa 40 anos de carreira. Está no TRT-17 desde 1994.
Para mim, ocupar uma posição de liderança sempre foi uma missão. Ao longo da vida, procurei nunca deixar passar uma oportunidade de contribuir. No caso das mulheres, ocupar espaços de liderança também representa uma forma de abrir caminhos e mostrar que podemos e devemos participar das decisões que impactam a sociedade.”
Alzenir Bollesi de Plá Loeffler
Além dela, sua vice-presidente também é uma mulher: Marise Medeiros Cavalcanti Chamberlain. Para Alzenir, as mulheres têm ocupado posições de destaque nos últimos anos, mas é preciso continuar avançando: “O fortalecimento das mulheres é um processo coletivo, que depende da participação e da atuação de muitas mulheres ao mesmo tempo”.
Quando mulheres ocupam espaços de decisão, há uma tendência maior de considerar diferentes realidades e de olhar com atenção para grupos que muitas vezes permanecem invisíveis ou têm suas demandas menos reconhecidas.
Alzenir Bollesi de Plá Loeffler
A desembargadora também fala sobre o machismo estrutural, que recai sobre as mulheres desde a forma de se vestir até a necessidade constante de provar competência. Mas vai além do ambiente de trabalho e acontece até dentro de casa. Ela conta que o machismo é algo cultural, que precisa continuar sendo discutido e transformado.
Para o Dia da Mulher, o recado de Alzenir é claro: “Nunca desista de investir em si mesma. Priorize sua formação, seus sonhos e sua autonomia. Quando a mulher investe em si mesma, ela fortalece sua autoestima e sua independência”.
Erica Neves (OAB-ES): “Nunca permiti que diminuíssem minha posição por ser mulher”
A advogada Erica Neves é a primeira presidente mulher da OAB-ES, cargo que ocupa desde 2025. Ela afirma que ter mulheres no poder amplia a diversidade de experiências nos processos de decisão, o que conecta as instituições à sociedade.
Não se trata de dizer que mulheres são melhores, mas de reconhecer que ambientes diversos tomam decisões mais qualificadas, devido a ampliarmos a visão.
Erica comenta que episódios de machismo acontecem, às vezes de forma explícita e outras mais sutis. É comum que ocorram em tentativas de deslegitimar a autoridade feminina. Mesmo assim, sempre enfrentou com preparo, postura firme e resultado.
Nunca fiz da pauta de gênero uma bandeira pessoal, mas também nunca permiti que o fato de ser mulher diminuísse minha posição ou minha responsabilidade. Liderança se consolida com trabalho e coerência.
De acordo com a presidente, o Dia da Mulher é data para relembrar conquistas, mas também avanços que ainda precisam ser consolidados. Ela comenta que ainda é necessário ampliar a presença feminina nos espaços de decisão: “O ideal é que, no futuro, a liderança feminina deixe de ser tratada como exceção e passe a ser algo natural.”
Erica também orientou que as mulheres sigam investindo em conhecimento, preparo e confiança, além de não esperarem por “permissão” para ocupar espaços, pois eles também pertencem às mulheres.
O lugar das mulheres não é à margem das decisões. É exatamente onde elas escolhem estar.
Folha Vitória