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Crítica: “Coração de Lutador” erra o golpe ao tornar uma grande história em um drama sem pulso

Mesmo com boa ambientação e atuações competentes, o filme desperdiça a força da trajetória de Mark Kerr ao optar por um recorte morno e arrastado

Por Redação em 02/03/2026 às 10:00:08
Dwayne Johnson impressiona mas não salva esse filme de ser tedioso (Foto: Reprodução/X/@A24)

Dwayne Johnson impressiona mas não salva esse filme de ser tedioso (Foto: Reprodução/X/@A24)

“Coração de Lutador” chegou ao catálogo da Prime Video, e através dele podemos ver que existe uma diferença enorme entre escolher um recorte intimista e simplesmente esvaziar uma história. Infelizmente, o filme tenta claramente seguir pelo primeiro caminho, mas acaba caindo no segundo.

A promessa era grande: retratar um dos nomes mais emblemáticos da era inicial do MMA, alguém que ajudou a pavimentar o caminho para o UFC se tornar a potência milionária que é hoje. No entanto, o que vemos em tela é um drama que parece girar em círculos, sem intensidade proporcional ao peso real dos acontecimentos.

Drama que não se aprofunda

As situações se acumulam, mas raramente evoluem. Há uma sensação constante de que algo maior está por vir, um momento de virada, uma explosão emocional que nunca chega. Em vez disso, o filme se apoia numa sucessão de episódios que parecem importantes isoladamente, mas que não se conectam com a potência dramática necessária para sustentar a narrativa.

A dependência química de Mark Kerr e o relacionamento turbulento com Dawn deveriam ser o coração da narrativa. São temas fortes, carregados de tensão e dor. No entanto, aparecem mais como ilustrações do que como eixos centrais realmente explorados. O filme mostra momentos de discussões intensas, recaídas, mas quase sempre de forma superficial.

A proposta do filme é clara desde o início: não estamos diante de uma cinebiografia tradicional, focada em vitórias épicas e glórias esportivas. A escolha é olhar para as derrotas, para o vício, para as falhas, para os bastidores menos heroicos. A ideia é interessante ao buscar humanizar o personagem. O problema é que essa abordagem exige profundidade e é justamente aí que a produção perde força.

Se há um mérito inegável, está na ambientação. A recriação dos anos 1990 é precisa e envolvente. Figurinos com marcas icônicas da época, como a Bad Boy, a atmosfera crua dos eventos de luta e até mesmo a forma como algumas cenas são filmadas como transmissões televisivas da época ajudam a transportar o espectador para aquele universo.

As lutas, quando aparecem, têm impacto visual e técnico. Não são grandiosas no sentido hollywoodiano, mas carregam realismo. A sensação de precariedade financeira, de risco físico extremo e de um esporte ainda buscando legitimidade está ali. Nesse ponto, o diretor demonstra domínio ao retratar um período em que os lutadores recebiam pouco e colocavam tudo em jogo, literalmente. Só que o filme para por aí.

Uma história poderosa diluída

Emily Blunt entrega uma atuação sólida, mesmo com material limitado. Sua personagem é claramente complexa, mas acaba reduzida a ciclos repetitivos de conflito. Surge para discutir, sofre, desaparece. Faltou espaço para ela brilhar, o que é especialmente frustrante porque há química entre os protagonistas neste relacionamento tóxico em que eles vivem. Existe ali uma base que poderia ter sido muito mais explorada.

Dwayne “The Rock” Johnson surpreende de maneira positiva. Ele nunca foi conhecido por grandes performances dramáticas, mas aqui demonstra esforço real em se distanciar da persona carismática que costuma dominar seus papéis. Não é uma atuação revolucionária, mas é convincente dentro da proposta. Ainda assim, nem mesmo essa entrega consegue salvar um roteiro que parece sempre segurar o soco.

O maior problema de “Coração de Lutador” não é a falta de qualidade técnica, nem a ausência de boas atuações, mas a sensação de que a história escolhida merecia muito mais. Apesar da dimensão histórica de Mark Kerr ser mencionada, nunca ganha o peso dramático que poderia transformar o filme em algo realmente impactante.

Há material para falar de vício, fama, queda, identidade, masculinidade, pressão e exploração dentro do esporte. Há elementos suficientes para construir um retrato cru e devastador. Mas no fim das contas, o saldo é frustrante. Não é um desastre técnico, ou um filme incompetente, mas algo muito pior: um filme morno. E quando se trata de uma trajetória tão intensa, ser morno é quase imperdoável.

Quem quiser realmente entender a complexidade da vida de Kerr talvez encontre mais profundidade em um documentário do que neste longa biográfico. O cinema tinha em mãos uma história forte, mas escolheu jogar seguro demais, e falando de um esporte onde quem hesita apanha, essa hesitação cobra caro.

Fonte: Folha Vitória

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