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*Artigo escrito por Diego Barros, advogado especialista em Direito Empresarial e Societário
No último dia 5 de outubro celebrou-se o Dia Internacional da Empresa Familiar, um convite a olhar para o modelo de negócio que sustenta a economia brasileira e, ao mesmo tempo, para o desafio que mais ameaça a sua continuidade: a sucessão.
Os números dão a dimensão do tema. Segundo o IBGE, cerca de 90% das empresas do país têm perfil familiar e respondem por aproximadamente 65% do PIB e 75% dos empregos.
Estão na padaria do bairro, na indústria do interior e nos grandes grupos com atuação nacional.
Apesar desse peso, poucas atravessam gerações. Pesquisas da PwC indicam que cerca de 30% apenas chegam à segunda geração e que em torno de 12% alcançam a terceira.
Por que tantas ficam pelo caminho? Raramente por falta de mercado ou de competência técnica. O que costuma faltar em muitos casos é o preparo para a passagem do bastão.
A família empresária precisa compreender que a sucessão não um evento, é um processo.
O tema deve deixar de ser um tabu e passar a ser discutido com antecedência, como parte de uma estratégia de longo prazo.
Empresas que se preparam, atravessam esse período de forma muito menos turbulenta.
Essa preparação exige atenção a três dimensões que convivem na empresa familiar: a família, o negócio e a propriedade.
A estruturação de boas práticas de governança existe justamente para harmonizar esses três pilares.
Protocolo familiar, acordo de sócios, conselho de família e plano sucessório são instrumentos que estabelecem regras essenciais para o ingresso de familiares na gestão, para a preparação e a escolha dos sucessores e para a tomada de decisões.
Regras definidas em tempos de paz evitam disputas em tempos de crise.
Mas a governança não serve apenas para prevenir litígios. Ela também preserva aquilo que diferencia a empresa familiar das demais empresas, a sua identidade.
É aqui que entra a ideia de valor e de propósito. Uma sucessão bem conduzida transmite não apenas o patrimônio e o comando, mas também o sentido do negócio, ou seja, os valores que devem continuar orientando as próximas gerações.
Outro ponto decisivo é entender que sucessão não significa só escolher um herdeiro para ocupar o lugar do fundador.
O processo envolve identificar competências e preparar lideranças. Sempre deve-se separar os vínculos afetivos das responsabilidades empresariais.
Nem todo familiar precisa estar na gestão, assim como a continuidade do negócio pode exigir a presença de executivos profissionais ao lado da família.
O mais importante é construir uma transição baseada em critérios objetivos, responsabilidades bem definidas e capacidade de liderança, garantindo que a próxima geração esteja efetivamente preparada para exercê-la.
A empresa familiar que cultiva propósito e valores sólidos e trata a sucessão com planejamento e governança tem muito mais chances de permanecer viva por gerações.
A melhor homenagem que uma família empresária pode prestar ao próprio legado é começar essa conversa, afinal perenidade não é sorte, é construção.
Fonte: Folha Vitoria