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Prestes a completar 89 anos, cardiologista capixaba ainda atende pacientes e revela segredo da longevidade

Prestes a completar 89 anos, o cardiologista Geraldo Cerutti conta que um dos segredos da disposição é o Pilates. Fotos: acervo pessoalGeraldo Cerutti nasceu em uma família de agricultor

Por Redação em 11/10/2026 às 17:00:07
“A primeira paz que você tem que ter é a paz com Deus. A segunda, eu acho, é a família. Graças a Deus, minha família é muito feliz. A paz com a família é muito importante também.”

“A primeira paz que você tem que ter é a paz com Deus. A segunda, eu acho, é a família. Graças a Deus, minha família é muito feliz. A paz com a família é muito importante também.”

Quase seis décadas se passaram desde que Geraldo Cerutti vestiu o jaleco como médico pela primeira vez. Aos 88 anos, prestes a completar 89 em outubro, o cardiologista capixaba continua fazendo o que escolheu para a vida: atender pacientes. No consultório em Jacaraípe, na Serra, ele mantém a rotina de trabalho e garante que ainda não chegou a hora de parar.

Nascido em 17 de outubro de 1937, no interior de Guarapari, Cerutti saiu de uma família de agricultores e percorreu um caminho que começou na roça, passou pelo Exército e o levou à faculdade de Medicina no Rio de Janeiro. Hoje, quando fala sobre longevidade, ele rejeita a ideia de uma fórmula única, mas aponta alguns pilares que considera fundamentais.

Segredo não existe, porque cada um tem o seu DNA. Uns vivem mais, outros vivem menos. Às vezes, tem pessoas que fazem tudo direitinho e, com 50, 60 anos, acaba a vida.

Geraldo Cerutti, médico cardiologista

Para Cerutti, além da genética, hábitos mantidos ao longo dos anos fazem diferença. Ele cita acompanhamento médico, atividade física e, principalmente, aquilo que define como paz: primeiro com Deus e depois dentro da própria família.

Geraldo Cerutti cresceu em uma família de oito irmãos. O pai era agricultor, assim como a mãe, que também trabalhava na lavoura. Enquanto alguns dos irmãos permaneceram no campo, ele seguiu um caminho diferente, muito por influência do pai.

Ainda jovem, estudou em um internato em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Aos 18 anos, quando precisou servir ao Exército, não tinha planos de seguir a Medicina. Foi novamente o pai quem interferiu no rumo da história: conseguiu que o filho trabalhasse na enfermaria para que aprendesse uma profissão.

Cerutti seguiu o conselho. No Exército, acabou se interessando pela área da saúde e posteriormente fez a Escola de Saúde do Exército, especializando-se como técnico de laboratório. O trabalho permitiu que conciliasse a carreira militar com a faculdade.

Hoje em dia, eu dou muito valor, mas valor mesmo, ao trabalho do meu pai. Tudo resultou de uma obediência severa a ele. Se eu fosse rebelde e não quisesse seguir meu pai, talvez não tivesse engrenado no que eu sou hoje.

Geraldo Cerutti, médico cardiologista

Cerutti formou-se em Medicina em 1967, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, fez pós-graduação em Cardiologia com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e depois retornou ao Espírito Santo.

Quase seis décadas de Medicina

De volta ao Estado, trabalhou na Escola Técnica, deu aulas e atendeu na Santa Casa de Misericórdia de Vitória. Também trabalhou no sistema público de saúde e manteve consultório particular.

Na Cardiologia, Cerutti se dedicou à área clínica. Segundo ele, também esteve entre os pioneiros na realização de teste ergométrico em Vitória, quando os recursos disponíveis para diagnóstico eram muito menores do que os atuais.

Ao comparar a Medicina daquela época com a de hoje, o cardiologista destaca o avanço dos exames e a mudança no próprio comportamento dos pacientes. Antes, segundo ele, era comum procurar um médico apenas quando alguma doença já havia se manifestado. Hoje, consultas preventivas e check-ups fazem parte da rotina.

“Na minha época, você precisava usar bastante a cabeça, conhecer bem a história do paciente e examiná-lo perfeitamente. Você tinha que descobrir quase pela história, porque contava com muito poucos exames.”

Outra transformação percebida ao longo da carreira está diante dele diariamente: as pessoas estão vivendo mais. Cerutti conta que passou a conversar com os pacientes sobre a necessidade de pensar a saúde não apenas para os próximos meses, mas para as próximas décadas.

Pilates há dez anos e consultório três vezes por semana

O médico também aplica esse pensamento à própria rotina. Há cerca de dez anos, pratica pilates e atribui à atividade parte da disposição e da postura que mantém perto dos 90 anos.

Ele trabalha atualmente três dias por semana, mas pretende reduzir a agenda para dois. Também planeja diminuir o número de convênios atendidos. Parar completamente, porém, ainda não está nos planos.

Eu vou segurando mais um ano ainda. Moro aqui pertinho, não preciso andar muito de casa, não tem trânsito, não tem nada. Onde eu trabalho é alugado, então não tenho problema com empregado, limpeza, prefeitura ou fiscalização.

Geraldo Cerutti, médico cardiologista

A rotina atual é bem diferente da enfrentada no início da carreira. Cerutti não trabalha mais em hospitais nem faz atendimento domiciliar. Ele lembra que, décadas atrás, médicos eram chamados durante a madrugada, aos sábados e domingos, inclusive em locais distantes.

Hoje, além de exercer a profissão, ele diz que o consultório funciona como uma forma de manter-se ativo e em contato com outras pessoas. Com uma agenda menos apertada, procura reservar mais tempo para conversar com os pacientes.

“Eu trabalho mais para ocupar o meu tempo, para sair de casa um pouco. Estipulo um horário maior e converso muito com os pacientes. Isso é muito importante, você ter tempo para conversar com eles.”

Perseverar para ter longevidade

Quando aconselha pacientes que querem chegar à velhice com qualidade de vida, Cerutti insiste em uma palavra: perseverança. Para ele, não adianta esperar resultados imediatos de mudanças que precisam ser mantidas durante anos.

O próprio pilates é usado como exemplo. Ele argumenta que os benefícios sentidos atualmente são resultado de uma década de prática, e não de algumas semanas de exercício.

Quando você começa com o propósito de fazer alguma coisa em prol da melhora da sua vida, tem que pensar que tem probabilidade de viver mais 30 anos. Para aguentar esses 30 anos, você tem que perseverar e ser firme nesse propósito.

Geraldo Cerutti, médico cardiologista

Além da atividade física, o cardiologista recomenda acompanhamento médico e correção de fatores que podem prejudicar a saúde ao longo do tempo. Mas volta sempre às relações pessoais e à espiritualidade quando tenta explicar o que considera essencial para envelhecer bem.

Uma vida dedicada aos pacientes

Há mais de duas décadas, Cerutti vive em Jacaraípe. A mudança ocorreu depois que a esposa sofreu um grave problema de saúde, em 2003, e passou a depender de cuidados permanentes. Ele interrompeu temporariamente o trabalho e reorganizou a vida para acompanhá-la.

Atualmente, a esposa permanece acamada e recebe cuidados em casa. Cerutti conta que faz exercícios com ela na piscina três vezes por semana para ajudar na mobilidade. Os três filhos moram fora de sua casa, mas, segundo ele, permanecem presentes. Uma das netas também passou recentemente a morar com o casal.

No consultório, o médico diz que uma das maiores lições acumuladas em quase seis décadas de profissão é justamente não permitir que os avanços tecnológicos eliminem a dimensão humana do atendimento.

“Você tem que tratá-lo como um ser humano, como uma pessoa mesmo. O atendimento ao paciente é de um ser humano para outro ser humano. Você tem que tratar com carinho, com respeito e com amor.”

Aos quase 90 anos, Cerutti diz que continua trabalhando porque ainda encontra sentido na profissão que escolheu. Para ele, permanecer tantos anos na Medicina só foi possível porque, ao longo do caminho, percebeu que havia encontrado sua vocação.

“O grande segredo é você ter escolhido uma profissão para a qual esteja vocacionado. O básico de tudo é sentir que aquela profissão é a sua vocação.”

Fonte: Folha Vitória

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