Imagem: Thiago Soares/Folha Vitória
Durante quase quatro meses, Rayssa de Assis Viana, 25 anos, evitou se olhar no espelho. O diagnóstico de micose fungoide, um tipo raro de câncer de pele, havia mudado não apenas sua rotina, mas também a forma como ela enxergava a própria imagem.
A doença foi descoberta em dezembro de 2024, depois de um tratamento para outra condição de pele. Para cuidar das feridas no couro cabeludo, Rayssa decidiu raspar o cabelo, mesmo antes de iniciar uma quimioterapia que pudesse provocar a queda dos fios.
Logo que eu tive o diagnóstico, eu tive uma fase muito ruim mesmo de autoestima. Eu descobri a doença em um estágio muito avançado. Ela tomou conta de mim e ‘comeu’ duas camadas da pele.
Rayssa de Assis Viana, assistente operacional
A estudante Natália Coelho Ferreira, de 18 anos, passou por uma situação similar. Aos 16, ela recebeu uma notícia que nenhuma adolescente está preparada para lidar: o diagnóstico de um nódulo no ovário direito.
Enquanto suas colegas se preocupavam com aulas e encontros com as amigas, Natália precisava enfrentar consultas, exames, cirurgia e quimioterapia.
Eu estava no segundo ano do ensino médio e, de madrugada, senti uma dor muito forte na barriga, como se fosse uma cólica. Eu vim para cá numa quarta-feira de manhã, achando que seria só uma consulta, mas, quando cheguei, o cirurgião já estava me esperando.
Natália Coelho Ferreira, estudante
A perda dos cabelos foi um dos momentos mais difíceis para Natália. Com os fios longos e cacheados, ela precisou lidar com uma mudança brusca na própria imagem enquanto ainda tentava compreender tudo o que estava acontecendo com sua saúde.
“Na época eu tinha um relacionamento, já ia me formar no outro ano. Ter que raspar todo o meu cabelo, acho que foi onde caiu a minha ficha de tudo que eu estava passando”, relembrou.
A autoestima como pilar da saúde
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade. Entretanto, quando pensamos sobre o assunto, muitas vezes esquecemos de algo que pode representar um grande desafio para muitas pessoas: a autoestima.
A percepção negativa sobre si mesmo é mais comum entre mulheres. Uma pesquisa realizada pela Kantar apontou que 20% das brasileiras sofrem com baixa autoestima, enquanto, entre os homens, o número chegou a 3%.
Segundo a psicóloga da Unimed Sul Capixaba, Juliana Xavier Machado, a baixa autoestima pode ter diversas causas: críticas constantes, excesso de cobrança, experiências de rejeição ou abandono ou situações de constrangimento público.
Agora, imagine acrescentar a esta receita um diagnóstico que, além de desafiador, é capaz de causar mudanças físicas para as quais não se está preparada.
A chance de um paciente com câncer desenvolver depressão varia de 22% a 29%, de acordo com um levantamento do Observatório de Oncologia. Ainda segundo a análise, pacientes com câncer de mama têm de 10% a 25% de chance de ter o transtorno.
Apesar de não ser o único, o modo como essas pessoas se sentem quanto a sua imagem pode ser considerado um dos fatores de risco. Entre as mudanças mais significativas está a perda dos cabelos.
Existe a questão da beleza, de se sentir bem, mas existe um ponto muito importante na perda do cabelo, que exacerba para todo mundo que você está em tratamento. Às vezes, a pessoa não quer ir à igreja, ir ao supermercado, ir a lugares e ser vista como paciente. Quer ser vista como uma pessoa, e a falta do cabelo, às vezes, anuncia aquilo que você quer ter uma privacidade, de lidar de uma forma mais discreta.
Juliana Xavier Machado, psicóloga da Unimed Sul Capixaba
Tania Maria da Silva Bos, de 52 anos, disse que sempre gostou de cabelos e, desde adolescente, sonhava com o dia em que finalmente veria seus fios ficarem longos. No entanto, em 2022, depois do diagnóstico de câncer de mama, ela viu esse desejo ser interrompido.
“É um processo muito doloroso quando a gente fala em autoestima. Eu sempre, desde nova, tinha o desejo de ter um cabelo comprido. E aí, quando chegou esse momento da perda do cabelo, foi numa madrugada e minha cabeça queimou muito. Quando eu passei a mão nos cabelos, saiu tudo, saía lá da raiz.”
Um dos maiores medos de Tania era de que o diagnóstico também impactasse sua vida profissional. Atuando há mais de uma década como cerimonialista de eventos, a forma como ela se apresenta para seus clientes é parte essencial do seu trabalho.
Fiquei pensando no sonho dos meus clientes e isso me machucou muito. Eu não quis deixar transparecer em nenhum momento desses anos todos de tratamento o quanto eu estava doente.
Tania Maria da Silva Bos, professora e cerimonialista
Um espaço para acolher e oferecer escolhas
Foi para atender a necessidade de mulheres que perderam os cabelos durante seus tratamentos que a cooperativa médica Unimed Sul Capixaba criou o Banco de Perucas e Lenços, em 2019.
A psicóloga Juliana Machado explicou que a ideia surgiu da mobilização de funcionários e representantes do núcleo feminino cooperativista. A primeira remessa reuniu 25 perucas confeccionadas com cabelos doados por colaboradores.
A iniciativa teve tanto sucesso que, em fevereiro deste ano, ganhou um espaço físico próprio no hospital da cooperativa, localizado em Tijuca, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Sul do Espírito Santo. Hoje, o banco dispõe de cerca de 80 perucas e mais de 150 lenços.
Queria um lugar mais reservado, mais acolhedor, para poder tirar do ambiente da quimioterapia. Por isso, criamos o camarim. As perucas são emprestadas às pacientes pelo tempo que precisarem, enquanto os lenços são destinados à doação.Juliana Xavier Machado, psicóloga da Unimed Sul Capixaba
Rayssa, Tania e Natália usaram perucas e lenços disponibilizados pela cooperativa.
No final das contas, a proposta é permitir que cada mulher decida como quer lidar com a própria imagem. Algumas preferem usar peruca; outras se identificam mais com lenços ou turbantes. Há também quem escolha não cobrir a cabeça.
Cooperando para uma nova história
Além das doações de cabelo, o banco recebe perucas de mulheres que já passaram pelo tratamento e desejam ajudar outras pacientes. Esta foi a decisão de Inês Vieira Stafanato, diagnosticada com câncer de mama em 2018.
Quando soube que precisaria fazer quimioterapia, uma das primeiras preocupações foi perder o cabelo: um black volumoso, pelo qual era apaixonada.
Os fios começaram a cair durante as sessões, e ela precisou encontrar uma alternativa para lidar com a mudança na aparência. Foi quando uma amiga indicou as perucas e a identificação foi imediata.
Coloridas, curtas, longas, lisas ou cacheadas. Cada dia, Inês estava com um look novo.
Eu não me via saindo da minha casa com lenço na cabeça, porque, na minha cabeça, estava testificando para a sociedade que eu estava em tratamento oncológico. Já a peruca cobre a nuca. Então, os vizinhos não desconfiavam que eu tinha ficado careca
Inês Vieira Stafanato, auxiliar de serviços gerais
Mesmo depois que os cabelos voltaram a crescer, Inês continuou usando os acessórios e passou a emprestá-los ou doá-los a mulheres que estavam começando o tratamento e não tinham condições de comprar os próprios modelos.
“Eu me apaixonei tanto que uso até hoje, mesmo com cabelo. Às vezes, o cabelo está sem pintar, sem forma, ponho a peruca para um evento e saio. Todo mundo sabe que eu uso peruca e pronto”, relata.
A decisão de doar parte do acervo para o Banco de Perucas e Lenços da Unimed Sul Capixaba veio também da percepção de que os modelos poderiam oferecer mais segurança a outras pacientes. Segundo Inês, algumas perucas disponíveis no banco não se ajustavam tão bem à cabeça de quem estava sem cabelo, enquanto os modelos que ela usava ficavam mais firmes.
Para ela, ter vivido a queda dos cabelos e as mudanças provocadas pela quimioterapia faz diferença na hora de acolher outras mulheres. Mais do que entregar uma peruca, ela quer mostrar que é possível encontrar maneiras de continuar cuidando de si mesma.
Eu que já passei pelo processo, que fiquei careca, posso chegar para uma pessoa em tratamento, passando por tudo que eu já passei, e mostrar como estou hoje e como me reinventei nas perucas. É diferente, porque eu vivi, eu passei.Inês Vieira Stafanato, auxiliar de serviços gerais
A psicóloga Juliana Machado também destaca a importância desse ciclo de solidariedade. De acordo com ela, essas histórias mostram como o acolhimento pode continuar mesmo depois que uma paciente encerra uma etapa da própria jornada.
“Pacientes que já passaram pelo processo entendem melhor do que ninguém a dor de perder os cabelos”, destacou.
O banco aceita doações de cabelos, perucas e lenços. Os interessados podem entregá-los no setor de Oncologia da Unimed Sul Capixaba, que opera dentro do hospital.
Mas afinal, o que causa a queda de cabelo?
O câncer surge quando células passam a se multiplicar de forma descontrolada, podendo invadir tecidos próximos e, em alguns casos, se espalhar para outras partes do corpo. Para combater a doença, o tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia e medicamentos, como os quimioterápicos, escolhidos conforme o tipo de câncer e as características de cada paciente.
A oncologista Mariana Novaes Pinheiro explica que a preocupação com os cabelos costuma aparecer cedo entre as pacientes, especialmente entre as mulheres mais jovens.
Quando recebemos mulheres, principalmente as mais jovens, com o diagnóstico de câncer, é uma das primeiras perguntas que elas fazem: ‘Meu cabelo vai cair?’
Mariana Novaes Pinheiro, oncologista da Unimed Sul Capixaba
No entanto, o que muitas pessoas não sabem é que a queda de cabelo é um dos possíveis efeitos colaterais de determinadas quimioterapias. Isso acontece porque alguns desses medicamentos atuam sobre células que se multiplicam rapidamente.
Como as células dos folículos capilares também têm essa característica, elas podem ser afetadas pelo tratamento, interrompendo temporariamente o crescimento dos fios e provocando a queda. “A queda não é causada pelo câncer e sim pelo tratamento. Vale destacar que também há opções de quimioterapia que não causam esse efeito.”
O câncer no Espírito Santo
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028. Entre as mulheres, predominam os cânceres de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide.
Para o Espírito Santo, a estimativa é de 9.750 casos por ano. Desse total, 4.190 seriam entre mulheres.
De acordo com dados do Painel Oncologia, disponibilizados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), nos últimos seis anos, os cânceres mais comuns entre as capixabas foram as neoplasias malignas da pele (12.973), neoplasia maligna da mama (7.618) e do colo de útero (2.476).
Confira o número de casos de câncer em mulheres, por ano, no Espírito Santo:
Diagnóstico detalhado202120222023202420252026TotalNeoplasia maligna do cólon e reto4284184794994341172.375Outras neoplasias malignas da pele9512.5122.9363.5402.38065412.973Neoplasia maligna da mama1.2761.4141.4741.5711.3405437.618Neoplasia maligna do colo do útero411590579529278892.476Carcinoma in situ da pele (forma inicial e não invasiva de câncer de pele)3802842334622691281.756Carcinoma in situ do colo de útero (forma inicial e não invasiva)2852062593342911301.505Neoplasia de comportamento incerto ou desconhecido1.6021.2146688358454895.653
Recomeçar também é aprender a se olhar
Enfrentar o câncer envolve desafios que vão além de consultas, exames e medicamentos. As mudanças na aparência podem afetar a maneira como essas mulheres se reconhecem e se sentem diante do espelho, em um momento em que precisam lidar com tantas incertezas.
É nesse momento que, para algumas, encontrar uma peruca ou escolher um lenço ajuda a recuperar parte da confiança. Mas, no final, para Rayssa, Tania e Natália, o que realmente importa é superar a doença e conhecer a nova versão que irá surgir após o tratamento.
Rayssa recebeu um transplante de medula da irmã há cerca de quatro meses e segue em tratamento. Tanto Natália quanto Tânia estão em remissão da doença.
O que eu sempre falo é: seja forte, vai passar, confia… vai passar, tudo passa. É um processo difícil, mas a gente precisa continuar, um dia de cada vez.Rayssa de Assis Viana, assistente operacional
Fonte: Folha Vitoria