Foto gerada por Inteligência Artificial
Jovens de 25 a 34 anos formam o maior grupo entre os capixabas que procuraram atendimento na rede pública de saúde por problemas relacionados às apostas. Dos 247 cidadãos atendidos entre janeiro e julho deste ano, 94 estavam nessa faixa etária, o equivalente a 38% do total.
Os dados fazem parte do estudo “Bets, Consumo e Saúde Mental no Espírito Santo”, elaborado pelo Connect Fecomércio-ES a partir de diferentes bases de dados. No período, foram registrados 564 atendimentos envolvendo os 247 pacientes, o que mostra que uma mesma pessoa pode ter recebido assistência mais de uma vez.
Mas o que explica a maior presença dos jovens de 25 a 34 anos entre aqueles que chegaram aos serviços de saúde por causa de problemas relacionados às bets? A própria pesquisa não estabelece uma relação de causa e efeito. Para a psicóloga Lucelia Aparecida de Paula, no entanto, características dessa fase da vida ajudam a levantar algumas hipóteses.
São pessoas mais jovens, são mais conectadas ao digital. Então, elas estão muito expostas às publicidades das redes sociais. E elas são as pessoas que estão construindo a sua vida financeira, profissional e familiar nesse momento.
Lucelia Aparecida de Paula, psicóloga
Mais conectados e com maior autonomia financeira
Segundo Lucelia, essa faixa etária também coincide com um período de maior autonomia. São jovens que, em muitos casos, concluíram a formação e estão entrando ou se consolidando no mercado de trabalho, passando a administrar a própria renda.
Ao mesmo tempo, a psicóloga chama a atenção para outro fator que pode influenciar não necessariamente o desenvolvimento do problema, mas a procura por tratamento: gerações mais novas podem apresentar menor resistência em buscar ajuda para questões relacionadas à saúde mental.
“São as pessoas também que eu posso dizer que estão com menos preconceito em relação às doenças mentais, porque é uma faixa mais nova e já têm mais essa clareza da importância da saúde mental. Então, eu acho que isso pode estar facilitando a busca pela ajuda”, afirma.
Lucelia ressalta, porém, que essa é uma interpretação profissional e não uma conclusão da pesquisa. Os dados mostram quem chegou aos serviços de saúde, mas não investigam os motivos pelos quais a faixa de 25 a 34 anos aparece em maior número.
Homens são maioria entre os atendidos
O levantamento mostra ainda que os homens correspondem a 72,9% dos cidadãos atendidos por problemas relacionados às apostas: foram 180 homens e 67 mulheres. Depois dos jovens de 25 a 34 anos, o segundo maior grupo etário é o de 35 a 44 anos, com 44 pessoas, ou 17,8%. Somadas, as duas faixas representam 55,8% dos pacientes atendidos no período.
Para o coordenador do Connect Fecomércio, André Spalenza, a concentração em pessoas em idade economicamente ativa foi um dos pontos que chamaram a atenção durante a análise dos dados.
O que mais chama atenção é que você tem uma concentração muito forte em pessoas que estão em plena atuação profissional e estão construindo sua trajetória profissional. E aí você tem a questão da organização da vida financeira e responsabilidades.
André Spalenza, coordenador do Connect Fecomércio
Pesquisa cruzou diferentes bases de dados
O estudo da Fecomércio não foi realizado a partir de uma única pesquisa de campo. A equipe reuniu informações de bases distintas, que analisam aspectos diferentes do fenômeno das apostas.
Dados do DataSenado foram usados para estimar o perfil dos apostadores, considerando características como renda familiar, sexo, escolaridade, situação no mercado de trabalho e faixa de gastos. O Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), por sua vez, forneceu informações sobre quantidade de apostas e valores movimentados nos municípios capixabas.
Já os registros de saúde foram utilizados para analisar os atendimentos e as características sociodemográficas dos pacientes.
“Fizemos um estudo de caráter principalmente descritivo. Reunimos e analisamos dados de diferentes fontes de acordo com a disponibilidade das informações, respondendo a questões específicas”, explica Spalenza.
Por isso, os números precisam ser interpretados separadamente. Os 38% referentes à faixa de 25 a 34 anos dizem respeito aos cidadãos atendidos por problemas relacionados às apostas, e não significam que essa faixa etária corresponda necessariamente à maior parcela de todos os apostadores do Espírito Santo.
ES teve 7,34 milhões de apostas em um único mês
A dimensão econômica também motivou a realização do levantamento. Segundo dados do Sigap analisados pela Fecomércio, o Espírito Santo registrou 7,34 milhões de apostas em junho de 2026, que movimentaram cerca de R$ 397 milhões. Na comparação com janeiro de 2025, a quantidade de apostas aumentou 47,5%, enquanto o valor movimentado avançou 48,5%.
Já com base no DataSenado, o estudo estima que aproximadamente 380 mil capixabas com 16 anos ou mais tenham feito apostas em aplicativos ou sites nos 30 dias anteriores à pesquisa realizada em 2024. Cerca de 33% dos apostadores estimados estavam na faixa de gasto entre R$ 100 e R$ 499,99.
Hoje, as apostas crescem muito devido ao celular, aos pagamentos imediatos e à presença muito forte na publicidade. Então, para nós, é importante reunir informações que de fato dimensionem esse mercado.
André Spalenza, coordenador do Connect Fecomércio
Apostas podem disputar espaço com despesas básicas
Um dos pontos de preocupação da Fecomércio é o comprometimento da renda familiar. O estudo estima que 186,9 mil apostadores pertenciam a famílias com renda de até dois salários mínimos. Dentro desse grupo, 59% faziam apostas de R$ 100 ou mais. Cerca de 31 mil capixabas nessa faixa de renda teriam comprometido mais de 15% da renda familiar com apostas em 2024.
Para a entidade, quando as apostas se tornam recorrentes, os recursos destinados a elas podem deixar de financiar outros tipos de consumo e, nos casos de maior comprometimento, pressionar despesas essenciais.
“Se eu estou falando de uma aposta na faixa de cem a quinhentos reais mensal em um público que tem renda familiar de até dois salários mínimos, esse dinheiro, em um primeiro momento, deixa de ir para outro tipo de consumo”, afirma Spalenza.
Segundo o coordenador, esse impacto pode ultrapassar a redução das compras e chegar ao endividamento quando a família passa a adiar pagamentos ou recorrer ao crédito.
“Quando as apostas passam a disputar espaço com essas despesas, podem, além de reduzir as compras de outras coisas, também levar ao adiamento de pagamentos e, em um segundo momento, ao uso do crédito e à inadimplência”, acrescenta.
Quando a aposta se torna um problema?
Para Lucelia, o sinal de alerta não deve ser determinado somente pela quantia apostada. É preciso observar a relação que a pessoa passa a estabelecer com o jogo e até que ponto perde a capacidade de decidir quando apostar ou parar.
O problema não é quanto a pessoa aposta. É o quanto de liberdade esta pessoa está perdendo diante da aposta, de liberdade de escolha. Eu acho que esse é um ponto bem importante.
Lucelia Aparecida de Paula, psicóloga
Ela explica ainda que, em alguns casos, o dinheiro envolvido na aposta assume outros significados. A possibilidade de um ganho rápido pode representar uma expectativa de solucionar problemas financeiros ou alcançar algo que parece distante pelas vias convencionais.
“O dinheiro, muitas vezes, não representa apenas o dinheiro. Ele representa esperança, alívio, reparação ou uma fantasia de uma saída rápida para uma dificuldade. Então, o que essa pessoa está buscando nessa busca pelo dinheiro que vem rápido?”, questiona Lucelia.
Fonte: Folha Vitória